O doce amargo



Seus olhos mal abriram. Você mal se situou. Os números no display do relógio são somente um embaçado vermelho. Mas ''ele'' está ali no meio da sua bagunça, desde muito antes de você acordar.
Então você coloca sua melhor roupa e finge ser qualquer uma que você viu pela frente. Faz seu make básico. Aquele que você ficou horas vendo num vídeo até conseguir copiar. Passa aquele perfume cujo o nome nem se lembra, aquele que você revirou a penteadeira toda até achar.
E finalmente sai pela porta toda esperançosa para mais um dia. Rotina ensaiada. Uma perfeita idiota.



E se antes esquecia o café, agora deixa de tomar propositalmente só pra ter a desculpa de ir até o Café.
'' Talvez ele esteja lá ''. Pensa a tonta. Esqueceu que a vida dele seguiu em frente e não para mais pra tomar café ?
É, esqueceu. Pois lá está ela, batendo os pés no chão freneticamente, tomando gole atrás de gole o sabor amargo da realidade. Dói tomar um beliscão não dói ? Dói acordar sem querer ser acordado.
300 ml de verdade com caramelo vão para o lixo.
Caminhando a passos tropeços para fora do estabelecimento tentando ignorar o efeito que isso têm. Lute enquanto eu ainda não te destruí completamente.
Corra para a 101 Boulevard. Ouça os artistas de rua e dê atenção especial aquela garotinha de cabelos ruivos e sujos que toca violão no portão de saída do parque. Lembre-se de como gostavam de ouvi-la. Lembre-se do juntos, gostavam, éramos. E então chore. Acorde. Acabou.
Mas veja só! Os acordes do violão não foram o suficiente para ela ! Pegou suas lágrimas e fugiu em meio a multidão da Wall Street. Ei, querida! Não tente fugir! Eu ainda posso ver você.
Ficou parada enquanto a multidão ia e vinha. Tudo tão bagunçado e indefinido. Como uma imensa cortina negra balançando em uma tempestade.
Será que eles podem ver o quanto você é fraca e tola? Acho que não. Estão ocupados demais vivendo suas próprias realidades para se importarem com o mundo de fantasias ao qual você se enterrou.
Não caia agora, não ai. Seria humilhante demais. Entre no elevador e enxugue as lágrimas. Há mil coisas a se fazer hoje, talvez assim você se distraia.
E enquanto cada andar é deixado para trás, sua cabecinha medíocre imagina as portas se abrindo e aqueles ben(mal)ditos olhos castanhos atravessando os seus. Os lábios se unindo logo após um ''Eu te amo''. As portas se abrem e a mente continua trancada. Os pensamentos se perdem no tempo e se não fosse a beliscadinha que dei, teria descido pro térreo de novo.
Caminhando apressada no salto 15 que ele lhe dera em direção ao escritório. Desejando loucamente desabar na mesa e deixar o coração chorar.
Distribuiu sorrisos falsos. Caminhou como uma mulher firme por todo o corredor . Atraiu olhares que lhe ofereciam uma bela chance de felicidade que ela negava. Ninguém podia ver a verdade sobre ela.Mas eu estava bem ali, ao seu lado. Esperando do lado de fora enquanto ela batia a porta me impedindo de entrar.
Querida, eu não vejo a hora de lhe dizer aquilo tudo que eu decorei em todos esses anos de perseguição dos quais você tenta fugir de mim.
Sinto admitir que tenho algo em comum com você. Somos persistentes.
Então não se preocupe, não importa quantas vezes você me beba e depois cuspa tudo nas suas tentativas fracas de me ignorar. Eu sempre estarei la novamente.
Na manha seguinte, nas notas melancólicas do violão, no silêncio do elevador, no doce amargo do café. Até que um dia você beba cada gota da verdade.
Ele se foi, e nunca mais vai voltar.

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